Minha
interação com o meio ambiente começou quando, abruptamente, deixei a capital
mineira por força de uma opção de vida. Essa introspecção, essa mudança radical
e repentina, só foi possível com a colaboração de minha família. Foi mais ou
menos assim: enquanto a sociedade discutia o que era bom para a qualidade de
vida do homem, resolvi fazer do meu sonho uma realidade. Fui radical; não me
mudei para uma pacata cidade do interior, mas sim, fui morar em uma roça, no
campo. Antes, minha consciência me obriga a revelar que nem todos os momentos
no campo são flores. A beleza frente à crua natureza não sobrepõe eventuais
contratempos, tais como o causticante sol, um pasto seco, uma poeira teimosa,
intempéries variadas e uma ou outra possível pedra no caminho; são frutos
inevitáveis. Pois bem! Os primeiros dias, por ocasião da mudança, foram tomados
pelas tarefas de nos acomodarmos, montarmos os móveis, instalarmos algum
aparelho, um acerto aqui outro ali, até tudo se normalizar. Nas noites quentes
de verão, eu já podia dormir de janelas abertas; essa liberdade preenchia meu
ego, pois, respirar livremente, sentir a brisa e poder ouvir o barulho da
natureza noturna, sem medo e sem ameaças, permitia-me enorme satisfação íntima.
Finalmente, depois de tantas tarefas que exigiam atenção e cuidados, tudo foi
ajeitado. Já se achava noite quando pude, então, me recolher para mais uma
noite de sono e sonhos. De repente, uma sensação doce, harmoniosa e suave tomou
conta de mim: foi quando percebi o amanhecer. O dia clareava! Como era
acolhedor o barulho da roça, o cantar do galo, das aves, de pássaros infinitos
e, para completar, o cheiro saboroso de um café que já se achava pronto. Minha
mulher, companheira de ideais, conhecedora da arte culinária e tocada por
entusiástico frenesi e pela boa vontade em servir bem, caprichou naquele dia
com um saboroso café da manhã acompanhado de algumas frutas colhidas em nosso
quintal. Havia também um puro leite ordenhado naquele exato momento que vinha
das proximidades do sítio e que havia sido entregue por cima da cerca que
circunda a divisa de nossa pequena, mas saudável propriedade rural.
Já
aposentado e destituído de outros compromissos sociais, depois de saborear
delicioso café matinal, peguei a estrada para realizar a minha primeira e tão
sonhada caminhada ecológica. Minha mulher não participou nem desta e nem de
nenhuma outra caminhada, pois dizia que, além do medo natural que ela tinha do
gado solto nas estradas, aquela tarefa de lazer não fazia parte ainda de suas
preferências imediatas daqueles primeiros dias de campo. Segui acompanhado,
todavia, de uma sensação inexplicável de alegria. Após um longo passeio,
retornei; porém, faltou-me inspiração para falar das sensações sentidas e
vividas do inesquecível dia. Procurava a fonte e o significado de tamanha
satisfação vivida naquele especial momento pela oportunidade de usufruir
extraordinária caminhada ecológica. Tomei-me da inspiração e logo pude
compreender que a minha longa ausência da natureza e da roça, permitia-me até
mesmo sentir saudades da tradicional poeira das estradas no período da seca,
fato habitual no mundo rural. Porém, uma chuva ocorrida de madrugada e que
comumente denominamos de chuva “fora de época”, atrasou minha expectativa em
rever a poeira; no lugar, a estrada úmida e agradável, uma doce brisa, um ar
puro, plantas rasteiras, pequenos montes floridos aqui e ali, orlados,
revezando com o capim meloso, múltiplas plantinhas espargindo perfumes
cativantes e, além do doce aroma, o verde de suas folhas delineava o limite da
estreita estrada. Era agosto e do outro lado da estrada havia incontáveis,
belos e sedutores ipês amarelos, imponentes, que concorriam com vasta
vegetação, dando graça, encanto e colorindo a paisagem. Ainda eufórico, pude
observar o contorno de fascinantes montanhas.
A
euforia não era para menos, pois a paisagem mostrava-me as famosas e lindas
montanhas de Minas, cujas encostas pareciam convidar-me a subir aos seus cumes.
O Sabiá festejava a chuva da noite anterior e parecia dar-me as boas vindas,
pois cantava com alegria. Havia também o Trinca Ferro, o Canário Chapinha,
pequenos animais, aves e pássaros animando a manhã ainda banhada pelo orvalho
da madrugada, criando gotículas cristalizadas que se apoiavam sobre as flores e
folhas daquele jardim natural.
Nos dias que se sucederam,
prossegui com as caminhadas, todavia, agora havia uma saudável inquietação.
Observando mais atento a presença do sol e a fecundação de tudo que existe de
vivo na natureza, questionei comigo mesmo a minha incapacidade poética para
reproduzir a exuberante e agradável presença doce e marcante de pássaros e aves.
Para falar desses pequeninos,
lembrei-me da imortal obra “Perdoo- Te”, que é a bússola de minha inspiração. O
trecho dizia assim: “Para me distrair, fui ao campo dar um pequeno passeio.
Ali, as aves me disseram: ‘-Há amor, mas há seleção; Se os homens truncam as
leis naturais... Aos elementos da vida não lhes cabe a culpa de que cerrem os
ouvidos para não ouvir palavras de amor e cerrem os olhos ante esse quadro
divino da reprodução universal”. Acrescentou outros pensamentos e concluiu o trecho
assim: “Quanto ensina o grande livro da natureza! Felizes aqueles que apreendem
a ler em suas folhas palpitantes de saber!” A personagem Íris e suas mensagens
se encontram no livro “Perdoo - Te”, de Amália Rodrigues Soler.
PORTAL DA NATUREZA:
Em
uma dessas tardes de verão, após uma chuva refrescante, o sol voltava a brilhar
e eu já me encontrava no trecho para mais uma caminhada. O astro do dia, numa
combinação com o arco íris, mostrava nuances coloridos, iluminando a
universalidade delicada entre as coisas da natureza. Em direção contrária, se
aproximava até onde eu me encontrava mais uma dessas valorosas amizades
conquistadas aqui na roça: era Carlos Nogueira da Silva, pessoa de valor e que
passava de carro. Parou e, como sempre, cumprimentou-me sorridente e me
perguntou o que tanto me extasiava ali naquele momento, pois era visível a
alegria estampada em meu rosto. Entusiasmado, respondi que não dava para fechar
os olhos diante da natureza nua e crua e que ele observasse o sol teimosamente
trêmulo por entre os galhos das árvores, exibindo raios multicoloridos.
Contemplamos ainda, bem de pertinho, os pássaros em voos rasantes na busca de
peculiares insetos pós-chuva de verão. Esse nobre cidadão, então, se despediu.
Sozinho, lembrei-me daquele trecho da Gênese, por Kardec, no capítulo da Via
Láctea, que diz assim sobre a natureza: “Lançai por um instante o olhar sobre
uma região qualquer do vosso globo e sobre uma das produções da vossa natureza.
Não conhecerá, aí, o cunho de uma variedade infinita, uma prova de uma
atividade sem par? Não vedes na asa de um pássaro das Canárias e na pétala de
um botão de rosa entreaberta, a prestigiosa fecundidade dessa bela natureza?”.
(Esse é o verdadeiro milagre-milagre da natureza).
MÃE D’OURO:
Novamente,
á tarde saí para mais uma caminhada para voltar somente quando já se alumiavam
os derradeiros raios de sol que se escondiam atrás das montanhas. O caminho de
volta, já bem perto de casa, era margeado por uma pequena lagoa. A alguns
metros de onde eu deveria passar, onde eu me achava naquele momento, de
repente, pude apreciar mais um capricho, mais um mistério da produção natural:
um facho de luz multicolorida resplandecente cortando o meu caminho, bem sobre
a lagoa, cuja luz partia... Não sei de onde veio e nem para onde foi, porém
cruzou o meu caminho. O abençoado momento me deixou feliz e serviu para que eu
compreendesse que, na “Venda” ou no “Boteco do Sô Vicente”, nem tudo que se
falava, se tratava de fantasia ou de imaginação. Na roça eles intitulam esse
fenômeno pelo nome de “mãe do ouro”.
Afinal, de que realmente se trata
esse fenômeno que nós normalmente denominamos como mãe do ouro? Provavelmente,
encontraremos farta explicação científica nos variados veículos de pesquisas
existentes; contudo, acostumados que estamos a julgar as coisas pelo nosso
insignificante e pobre entendimento e muitas vezes ignorando as próprias leis
naturais que regem o planeta, resolvi abandonar os fartos achados científicos e
me colocar como mero e pobre observador que sou, para expor o meu ponto de
vista nu e cru, tal como o fizesse um camponês. Ela, a mãe do ouro, pode ter
uma explicação assim: um facho de luz radiante, tal como fogos artificiais
cruzando o céu, cujas faíscas parecem ser a causa da impulsão e cujo brilho é fascinante
e de uma velocidade incrível. Meu sentido imediato me faz entender que a mãe do
ouro mede uns vinte centímetros de comprimento, cuja altitude se passou aos 25
metros. Segundo dizem, esse fenômeno se inicia onde possui um veio de ouro e
encerra seu curso... quem sabe?
FÁBIO LIMA, um amigo
incomum,
Naquelas
paragens construí amizades sólidas. Um dia, em meio a tantas caminhadas, vim a
conhecer o Fábio; esse encontro foi patrocinado pela vontade de Deus. Fábio
abriu-me as portas para os inumeráveis encantos naturais da vida no campo.
Poeta, orador e exímio violeiro, toca com a alma. Sua viola parece ter vida
própria e só toca quando quer; é como se sua viola fosse geniosa e
emocionalmente vulnerável às influências, tal como as mulheres que se isolam no
quebrantamento do climatério. Sua viola, quando quer, é realmente enigmática,
de agradável sonoridade e foi construída por iniciativa de sua intuição. Certo
dia, ele sonhou com a viola e no dia seguinte, com as madeiras da própria
região, iniciou sua criação.
É inexplicável a beleza do contorno de seu
instrumento e seu som é inigualável. Fábio é, ainda, exímio contador de
“causos” e um conhecedor profundo da história rural. Foi com esse conhecimento
etnológico que ele iniciou aqui na roça a recuperação de peças do uso no campo.
Buscava nos quintais peças antigas e semi-perdidas, recuperando-as para se
juntarem a outras dezenas, enriquecendo um acervo. Embora sem recursos
financeiros, conseguiu, com ajuda de amigos, construir uma capela onde
depositava todas aquelas peças; assim, desse passatempo, nasceu o museu
etnográfico. Quando o museu já se achava
pronto havia mais de oitocentas peças; era constituído desde o moinho d’Água e
o carro de boi até o monjolo.
Quando
conheci Fábio, ele tinha 33 anos, era casado e na ocasião possuía uma filha de
quatro anos (essa filha hoje se acha menina-moça). A mulher de Fábio, amiga e
parceira de todos os momentos da vida, se chama Edna. A filha do casal tem o
nome de Abigail, em homenagem à personagem do livro de “Paulo E Estevão”. Essa
família maravilhosa já não reside mais em Minas; acha-se nas proximidades da
região mística da Serra do Roncador, no Mato Grosso.
Benedito Pinheiro, conhecido por
Dito, Hermes Mesquita, Senhor Geraldo, Rogério Claro, são companheiros de
tempos inesquecíveis. Compartilhamos ideais filosóficos no entendimento da paz
e da amizade. São dezenas de amigos. Zé Lobeira (ou José Bernardes da Fonseca),
o mais próximo vizinho; entre estes inúmeros companheiros, alguns nos ajudam a
desenvolver o projeto ambientalista que consiste em trazer de volta ao convívio
de nossa região, o Canário Chapinha ou o Canário da Terra que possui o nome
científico de “Sicalis Flaveola”. Essa inspiração chegou-nos por meio da
revista “Veja”, na edição de junho de 1998. Consta na revista que um cidadão,
com o nome de João, morava na Zona Rural do município de Reduto, Região da Zona
da Mata, onde havia abundância de Canários da Terra. Ao transferir-se para a
cidade resolveu levar a seus novos vizinhos a proposta de trazer para a cidade
os pássaros. Segundo informações, hoje a cidade de Reduto se encontra povoada
de enorme quantidade dos canários. Já estamos fazendo trabalho igual aqui em
nossa zona rural. Para colocar em prática nosso movimento faltava-nos apenas a
autorização das autoridades ambientais. Todavia, as instituições ambientais que
nos ajudariam são as que mais atrapalham. Trago comigo a negação do Ibama para
a liberação de nosso projeto. Embora, sem a liberação do Ibama, em abril de
2008, um projeto científico para trazer o Canário Chapinha de volta ao convívio
com a comunidade da região rural de Campos, foi aprovado e inserido nas
disciplinas pelo professor Heslley Machado Silva. Meu agradecimento ao
professor na abrangência dos abnegados e dedicados alunos da Faculdade de
Biologia da Universidade de Itaúna, em Minas Gerais.
Para
salientar aos meus leitores, hoje nosso ambiente rural, por iniciativa de um
trabalho artesanal e coletivo, sem nenhuma ajuda das instituições públicas,
nossa região está repleta de canários - muitos canários, graças a
espontaneidade de moradores como o Senhor Dionísio Rabelo de Moraes, Otomar,
Adelino Rosa, Igor Israel, Mério de Souza Moraes, Ivar Dornas, José Bernardes,
Fernando, Kemerson Dutra e outros tantos abnegados, voluntários e amigos da
natureza.
Outro
fato, tendo atualizado a presente obra em julho de 2012, pude registrar, com
grata surpresa, a volta da família de Fábio ao antigo Lar, para a alegria de
todos os amigos.
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